domingo, 20 de setembro de 2015

Seja gentil com você mesmo – você comerá melhor

Lemos recentemente um artigo que, além de interessante, é bastante pertinente nesse começo de ano, quando a maioria das pessoas está na fase da culpa pelas comilanças das festas. Nele, Louise Wedgwood, fala da importância de sermos gentis com nós mesmos. Os prescritores de dieta, sejam eles os nutricionistas, as revistas ou os amigos no bar, dizem que fazer uma restrição  alimentar e perder peso é questão de força de vontade. Assim, prepare suas resoluções de ano novo e se transforme nessa pessoa cheia de raça para “fechar a boca" e virar um “rato” de academia! Se você não conseguir, amigo, que vergonha. Como a pessoa fraca que você é, esse item nunca saíra da sua lista.

Acontece que, longe de ser uma questão de força de vontade, muitos estudos têm mostrado que a manutenção de dietas em longo prazo é sabotada pelo nosso próprio corpo. A restrição alimentar dispara mecanismos fisiológicos e psicológicos que, além de levar a um consumo maior de alimento, pode ter o efeito oposto ao objetivo inicial e causar ganho de peso. E isso pode significar ganhar de volta todos os quilos perdidos quando começou a dieta ou até mais! Como aconteceu com uma australiana entrevistada por Wedgwood, o efeito iô-iô proveniente de tentativas seguidas de perda de peso também pode levar a uma diminuição de músculos e aumento de gordura corporal.

Pense na saúde pública. Apesar de todas as medidas governamentais, de toda a informação disposta na internet, de tantos profissionais que prescrevem dieta, das novas dietas que pipocam semanalmente, do aumento nunca antes visto do mercado de alimentos diet e livres de gordura, o fato é que os índices de obesidade estão altos (de acordo com a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico – Vigitel – feita pelo Ministério da Saúde e pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), 50,8% dos brasileiros estão acima do peso considerado ideal), e o clima é de “perdemos a batalha contra a obesidade”.

Reflita ainda sobre sua própria experiência. Há quantos anos a resolução de perder peso não sai de suas listas de fim de ano? Quantas dietas não foram iniciadas e, ao final de cada uma, o que você encontrou foi uma sensação de fracasso e de que você não tem força de vontade?

Com todos esses dados, é realmente possível que dieta funcione?

Acreditamos que a solução não está em algo ou alguém externo que dite o que, quando e o quanto você deve comer. É o seu próprio corpo que possui as ferramentas necessárias para guiar sua relação com a comida. Mas você ouve os sinais que ele emite? Com que frequência você faz uma pausa para prestar atenção ao vazio em seu estômago e atende a esse sinal que diz que seu corpo precisa de alimento? Quando foi a última vez que você parou para sentir o gosto da comida em sua boca, realmente saboreando-a em vez de engolir tudo apressadamente?

Quando seguimos uma dieta rígida, nosso corpo responde retendo mais gordura quando você começa a comer normalmente e diminuindo o metabolismo para guardar mais energia, já que não está sendo apropriadamente alimentado. E mais, nosso desejo por comida aumenta, levando-nos a exageros alimentares.

Quantas vezes você se nega um chocolate por tanto tempo que não consegue parar de pensar no quanto você quer comê-lo e, quando finalmente se permite, come a barra inteira e não somente o que teria comido se tivesse respondido a sua vontade logo no início?

Ainda, fazer dieta está associado a distúrbios alimentares, deixa a pessoa mais predisposta a perder o controle e comer exageradamente quando viola “as regras” e come algo que a dieta não previa. Você pensa “que se dane, já estraguei tudo, já estou me sentindo miserável, então vou me consolar comendo o resto do pacote de bolacha, da caixa de bombom, etc”. Com tudo isso, a dieta deixa essa sensação de fracasso, diminui a autoestima e destrói nossa autoconfiança.

Que tal olhar para si próprio com mais gentileza? Não se critique tão duramente. Muitas pessoas acham que isso é motivador, mas pensando em suas experiências passadas, quão motivado e quão bem você se sentiu após se crucificar por se desviar do seu plano alimentar? Você não é uma pessoa boa ou má por comer determinados alimentos. Não existem alimentos morais e imorais. São todos alimentos, cada um carregando benefícios e eventuais malefícios em si, dependendo de como você os consome.

E se em vez de se martirizar você pensasse: “eu realmente exagerei hoje. O que será que eu estava sentindo para me fazer precisar de mais comida para me confortar?”.

Olhar para dentro de si mesmo é um passo importante para estabelecer uma boa relação com a comida. Perceber seus sinais de fome e saciedade, tomar contato com suas emoções e sentimentos e descobrir novas formas de lidar com eles sem usar a comida como coadjuvante é fundamental para se ter uma alimentação prazerosa e saudável.

Não colocamos em cheque aqui a importância de alimentos nutritivos para nossa saúde e bem-estar, mas se você não tem uma relação saudável com a comida, dificilmente conseguirá comer de uma maneira saudável.

Para alimentar seu corpo de uma forma gostosa e sadia e se esquivar da preocupação gerada pelas notícias quase diárias sobre alimentos que são benéficos à saúde e que de repente já se tornaram o inimigo número 1 do gênero humano, o importante é comer uma ampla variedade de alimentos, para assim adquirir todos os nutrientes necessários ao corpo, comer com moderação (e isso não significa comer porções ínfimas de comida, mas sim respeitar seus sinais de saciedade quando esses aparecerem) e comer de maneira balanceada. Ou seja, comer de uma maneira que você seja capaz de levar adiante, sem fazer seu corpo passar fome e sem se negar o prazer de comer alimentos de que você gosta.

Comer é um dos maiores prazeres da vida! Precisamos aprender a não fazer desse momento um campo de batalha.

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